Alburrica – Mexilhoeiro Um conjunto patrimonial

A zona da Ponta do Mexilhoeiro e de Alburrica constituem um conjunto patrimonial de interesse bastante relevante para a História do Barreiro, com uma ocupação que remonta ao epipaleolitico e que ao longo dos tempos espelha a diversidade da actividade proto-industrial do Concelho. No entanto a erosão induzida pelo moderno tráfego fluvial está a pôr em risco um legado que a continuar assim não chegará ás gerações futuras.
 
 

António Camarão

 

 Alburrica – Mexilhoeiro Um conjunto patrimonial

1      Contextualização Histórica

1.1    Primeira Ocupação

A ocupação humana na zona do Mexilhoeiro e de Alburrica tem origens tão remotas quanto o epipaleolitico como se pode aferir pelas descobertas feitas no Mexilhoeiro de espólio arqueológico em Pedra (sílex, basalto, calcário, granito) recolhidos por um amador no final da década de 60, alguns desses achados serão mesmo, eventualmente remontáveis ao neolítico (furadores, pesos, machados).

Tratando-se decerto de populações que dependiam e viviam em estreita relação com o rio não será de descurar a existência provável de fixação lacustre.

 

 1.2    Moinhos de Maré

Na Idade Média a zona terá sido aproveitada para o estabelecimento de salinas e disso temos o testemunho através de documentação sobre a reconversão destas em caldeiras para o estabelecimento de moinhos de maré, num total de 4, sendo o primeiro o Moinho do Cabo de Pêro Moço, mais tarde denominado do Cabo da Lenha ou tão somente do Cabo, o qual é anterior a 1534, edificado de origem com 4 casais de mós, tendo-lhe sido posteriormente duplicada a capacidade moageira para 8 casais de mós.

Anteriores a 1652 estabelecem-se os Moinhos de Maré Grande e Pequeno.

O Moinho Grande, como hoje é conhecido, dotado de sete casais de mós termina a sua actividade exclusivamente moageira cerca de 1892 quando aí passa a laborar a Companhia da Fábrica da Serração, de Orey Antunes & Cª., o que lhe valeu ser apelidado de Moinho da Serração. Nos anos 20 do século passado a firma Henry Burnay & Cª., com sede em Lisboa, instala uma fábrica de moer e de misturar diversos produtos de origem animal e vegetal e o imóvel passa a ser conhecido como Moinho do Burnay.

O Moinho Pequeno, assim chamado por ter apenas 3 casais de mós, laborou até ao primeiro quartel do século XX, passando posteriormente a ter utilização de armazém de produtos que ao Barreiro chegavam do Ribatejo através das fragatas.

O Moinho de Maré do Braamcamp foi edificado no séc. XVIII nos terrenos da Quinta Braamcamp, possuía 10 pares de mós. A partir de 1897 instalou-se no edifício a Sociedade Nacional de Cortiças que ali ainda permanece.

  

 1.3    Moinhos de Vento

Os Moinhos de Maré tiveram o seu fim anunciado com o aparecimento na zona dos Moinhos de Vento que foram 5 e dos quais agora restam apenas 4 todos propriedade da CMB..

O Moinho do Jim construído em 1827 por Diogo Hartley, o sistema de velas original era de tipologia holandesa: velas de madeira rectangulares.

Cerca de 1852 aparecem três outros moinhos construídos pela família Costa que também havia sido proprietária de moinhos de Maré.

Moinho de Vento Gigante construído em 1852 por José Pedro da Costa. O sistema de velas é idêntico ao do Moinho de Vento do Jim (tipologia holandesa).

Moinho de Vento Nascente construído em 1852 por José Pedro da Costa e Moinho de Vento Poente construído em 1852 por José Francisco da Costa. Ostenta um registo em azulejo da invocação de Nossa Senhora do Rosário.

O recuo da linha de costa está hoje a por em risco as fundações do Moinho Gigante pelo que urge a sua consolidação e estabilização, a par da reposição das cotas da margem.

 

1.4    Pontes Cais

 1.4.1    Primeira e Segunda Ponte dos Vapores do Tejo e Sado

A actividade erosiva no limite da maré provocada pelo tráfego fluvial dos catamarans que ligam o Barreiro a Lisboa fez emergir no Mexilhoeiro um conjunto patrimonial de que as gerações actuais quase já não tinham memória.

A primeira e segunda ponte de atracagem da ligação Lisboa – Barreiro foram de facto no Mexilhoeiro, como as plantas que aqui apresentamos o comprovam.

A estrutura agora visível, pertencente à segunda ponte, e é constituída por uma série de pilares tipo “duques de Alba” construídos dentro de ensecadeiras e um pontão de pedra aparelhada e material de enchimento que se prolongam na duna concrecionada.

O vestígio das estacas da primeira ponte construída inteiramente em madeira ainda é visível na baixa-mar á direita das estruturas em pedra.

Lº Acórdãos CMB 1854/1861
1860, 4 de Fevereiro
«A Companhia dos Vapores do Tejo tinha anunciado que deixava de aportar à Ponte do Mexilhoeiro desde o dia 23 último nas carreiras que costumava fazer nos intervalos e somente tocaria ali na 1ª carreira da manhã vindo para Lisboa e na última da tarde vindo para Sul e vendo a Câmara que por este motivo se inutilizava a conservação da Ponte por se lhe cortar os rendimentos e tendo nesse sentido o oficiado a Direcção da dita Companhia esperando que em vista das razões ponderadas se resolviam a conservar as mesmas carreiras athé agora pelo contrário recebeu em resposta uma perfeita negativa …
Por este modo se vem a inutilizar a conservação da Ponte que apenas poderá render para pagar ao guarda e conservar o farol que a câmara mandou constituir».
A câmara resolveu levar o caso ao governo de Sua Magestade pelo Ministério das Obras Públicas.
Lº Acórdãos CMB 1854/1861
 1861, 29 de Outubro
Representação à Câmara dos Deputados relativo ao contrato estabelecido entre a Cª dos Vapores do Tejo e o governo que pedem às Cortes para dar um subsídio anual à Cª para que a mesma seja obrigada a fazer pelo menos todos os dias duas carreiras ordinárias para a Ponte do Mexilhoeiro. A mesma representação será remetida ao nosso Representanteem Cortes António RodriguesSampaio.
 Lº Acórdãos CMB 1854/1861
 Arrematação de um pilão de pedra lavrada na Ponte do Mexilhoeiro (informa sobre as técnicas de construção) pág 170

1.4.2    Ponte Fluvial dos Caminhos-de-ferro do Sul

Antes da Construção da Estação Ferroviária e Fluvial, vulgo Estação do Barreiro, na Avenida de Sapadores, o cais de atracagem dos vapores da CP, o terceiro a existir nesta zona, foi no alinhamento da primeira estação, actuais Oficinas Gerais da EMEF.

Uma vez mais devido ao desassoreamento provocado pelos catamarans emergiram os vestígios desta longa ponte, constituída por núcleos de 5 estacas cada, em que a principal apresenta um diâmetro médio de 40cm.

1.5    O Estaleiro de Construção Naval

A zona de Alburrica, junto dos moinhos albergou um estaleiro de construção naval de média dimensão do mestre Francisco Ferreira que laborou até meados do século passado.

Algumas das estruturas, lembrando palafitas, que se observam frente aos moinhos na areia e no lodo, fazem parte da área funcional deste estaleiro, serviram outrora de estruturas de retenção de areia para suporte a construções.

A estrutura em betão que se situa no topo da duna atrás do Moinho Nascente, corresponde à plataforma de apoio da cábrea (assinalada a vermelho na planta do estaleiro), anteriormente a meio caminho entre esta plataforma e o referido moinho também havia ou haverá sob a areia, o pilar de apoio do guincho que servia a carreira de construção ilustrada pela imagem acima.

 

1.6    Conclusão

Pelo acima exposto pensamos não restar dúvida de que as pontas de Alburrica e do Mexilhoeiro, constituem um valioso património cultural e natural que urge proteger.

Em vias de classificação, toda a zona emblemática, será integrada num projecto cujo objectivo visa não só devolver as áreas ribeirinhas aos munícipes barreirenses, mas também sensibilizá-los para a preservação ambiental e para a perpetuar a memória colectiva. Juntam-se esforços e sensibilidades para que o futuro seja melhor sem apagar o passado.

Artigo originalmente publicado em: MUSA museus, arqueologia & outros patrimónios 3; Setúbal; 2010

Uma resposta a Alburrica – Mexilhoeiro Um conjunto patrimonial

  1. gostei muito de saber que tais docomentos existem tois é bom que a memoria perdure obrigada a todos os decomentalistas

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