Os antigos moinhos de maré da Verderena

António Nunes Camarão – Sector do Património e Museus – CMB

Ficou a dever-se a Gaspar Correia a edificação do primeiro moinho de maré na Verderena, o qual em 1484 se encontrava ainda dentro dos limites do alfoz de Alhos Vedros, e que em 1521 passou a constituir referência para a demarcação da fronteira entre o concelho de Alhos Vedros e o do Barreiro, mas como parte integrante deste último, facto que se pode atestar pela Carta de Foral outorgada a Vila Nova do Barreiro redigida nesse ano.

ffazemos o dito llogar do Barreiro villa e queremos que daquy em diamte se chame villa nova do Barreiro e a tiramos e desmembramos do termo da dita villa dalhos vedros e lhe damos por termo asy como vay o dito camjnho e das ditas casas asy como vay o camjnho entestar na marynha de Joham Roiz ficamdo a dita marynha e os mojnhos de Gaspar Correa dentro do termo da dita villa nova do Barreiro

As referências documentais para a história deste moinho são intermitentes na cronologia até ao século XIX que se apresenta como o mais documentado. É a partir desta altura que se pode aferir a existência não de um, mas de dois moinhos, um de cinco moendas e outro de seis, e com o avançar dos tempos deixavam de constituir o termo da vila e passavam a estar envoltos na paisagem rural que se ia desenvolvendo na medida em que se ia emparcelando em quintas e casais.

Pormenor da Carta Topográfica da Península de Setúbal (1813 – 1816) onde é visível a localização dos moinhos existentes na Verderena, com as respectivas caldeiras.

No início do século XX os moinhos da Verderena constituíam uma propriedade apetecível rodeada pela Quinta dos Arcos a Sul, pelas Quintas do Convento e da Paiva a Este e pela Quinta Grande que se dividia dele por uma das principais vias de acesso ao Barreiro a partir da bifurcação da estrada de Palhais que descia suavemente desde a Quinta da Lomba. Por outro lado era com as duas caldeiras de serviço, plano central na frente ribeirinha do Coina entre as marinhas do Prego e as da Verderena.

Pormenor da Carta Topográfica Militar de 1904

Talvez pelos factos acima referidos, em1921 a Empresa de Moagem Bomfim, Lda., requer licença para uma unidade de engorda de gado suíno com capacidade para fazer farinha para a sua auto-suficiência e venda de excedente, os dois moinhos totalizando nove engenhos fazem então parte da mesma unidade moageira industrial, a área amuralhada em torno dos moinhos constituía um ancoradouro vantajoso para a entrada de matérias primas e expedição dos produtos desta unidade industrial. Pela análise da planta geral da fábrica, constata-se já ter havido superfícies intervencionadas e regularizadas.

Junto aos moinhos da Verderena a Malhada para Gado Suíno pertencente à Empresa de Moagem Bomfim, Lda., que aproveitava nela parte das farinhas produzidas na instalação de moagem a vapor que funcionava no maior dos dois moinhos da Verderena, que havia sido ampliado para o efeito (edifício claro de três pisos).

Em primeiro plano a Quinta Grande da Verderena que começava a ser progressivamente ocupada pela malha urbana, ao centro os Moinhos da Verderena, em segundo plano a Quinta dos Arcos, e ao fundo a Telha e a Parceria Geral de Pescarias.

No inicio dos anos 40 do século XX a deslocalização de algumas unidades da industria corticeira quer por imperativo do crescimento urbano ou pela simples necessidade da expansão empresarial, como foi o caso, levou ao interesse da firma Theodoro Rubio & Filhos Ltd. a interessar-se e a concretizar a posse da quase totalidade da área ocupada pela Empresa de Moagem Bomfim, Lda. transformando-a numa enorme unidade fabril corticeira que beneficiava não só do património já construído como dos cais para embarque da cortiça transformada para exportação.

Em primeiro plano a Quinta Grande da Verderena que começava a ser progressivamente ocupada pela malha urbana, ao centro os Moinhos da Verderena, em segundo plano a Quinta dos Arcos, e ao fundo a Telha e a Parceria geral de Pescarias. – Fonte: Anónio Rubio

A malhada da suinicultura transformada em unidade corticeira Rubio – Fonte: Anónio Rubio

Fragatas a carregar no cais da verderena – Fonte: António Rubio

O complexo dos moinhos da Verderena visto da Quinta dos Arcos

Os edifícios vêm posteriormente a ser demolidos em 1970[1], tendo lugar o aterro da quase totalidade das caldeiras dos dois moinhos e das zonas contíguas a Norte que outrora haviam sido salinas e viveiros de peixe.

A área original dos moinhos e caldeiras ocupadas ao tempo da Empresa de Moagem Bomfim, Lda sobreposta ao aterro dos anos 7o do século XX


A pressão da carga urbana vai progressivamente tomando lugar no espaço dos antigos moinhos que outrora foram o ponto determinante para o limite do Concelho, constituindo  per si e por esse mesmo facto  um marco histórico edificado.

O avanço urbano na antiga Quinta Grande que se transforma por completo e dá lugar à Verderena

Vestígios dos antigo moinho pequeno da Verderena. Foto de António José de Almeida (1946-1992).

Foto de Guilherme Ferreira – CMB

[1] Escrito de JoséAntónio Marques (1900-1992), onde afirma ter-se iniciado a demolição do muro dos terrenos e caldeiras dos moinhos de maré da Verderena no dia 7 de Abril de 1970.

Referências documentais dos Moinhos da Verderena

1484, Junho, 27 — Carta de confirmação de sesmaria do esteiro das Verderenas, termo de Alhos Vedros, a Gaspar Correia, para fazer moendas. (ANTT, Chanc. D. João II, Lº. 22, fl. 30

1521, Julho, 18 — Carta de aforamento em vida de três pessoas de uma quinta que trazia Rodrigo de Vasconcelos, com duas marinhas, e uma delas parte ao Norte com caminho do Concelho que vai para a Verderena Grande e ao Poente com calçada dos moinhos de Gaspar Correia e com pedaço de viveiro. (ANTT, Ordem de Santiago, B 50-12).

1534 — João Correiapagou a Ordem de Santiago a quantia de 60 alqueires de trigo, por um moinho que possuía no limite do termo do Barreiro, e do qual não tinha carta. (ANTT, B 50-171, Visitação a Vila do Barreiro, 1534).

1687, Janeiro, 20 — António Teixeira arrenda por 3 anos o seu moinho de maré de 5 engenhos, na Verderena, ao moleiro António Ferreira Branco, morador no Barreiro. (ADS, Notarial Barreiro, II/9).

1706, Abril 1 — Contrato de arrendamento de um moinho de maré com cinco engenhos, sito na Verderena, pelo tempo de seis anos, cumpridos e acabados, entre a proprietária D. Isabel Coelho e António Ferreira Branco, rendeiro; o moinho é forro e isento, e paga taxa pela água da caldeira a Comenda do Barreiro da Ordem de Santiago. (ADS, Notarial Barreiro, 11/10).

1803, Marco, 14 — Escritura de empréstimo gratuito de dinheiro feita entre o Capitão João Pinheiro Borges a Francisco Ferreira, rendeiro do Moinho da Verderena, da quantia de 34$200 réis, para este reparar o varame da sua casa. (ADS, Notarial Barreiro, V/31).

1805, Julho, 12 — Belchior Raimundo de Cerqueira, Tesoureiro da Câmara do Barreiro, tinha em cofre 270$000 réis pela compra que fizeram Jacinto José Gonçalves e João Batista a Caetano José de Sousa, procurador de sua mãe, D. Maria Madalena Machado, de um moinho sito na Verderena. (CMB, Arquivo Municipal, Livro de Sisas).

1815, Julho, 14 — Venda de metade de um moinho, suas pertenças, serventias e logradouros, por Jacinto José Gonçalves e sua mulher, D. Tereza Angélica, a João dos Santos da Costa, moleiro, por 1:200$000 réis; o barco do moinho valendo 200$000 réis. Confrontações: a Norte e Nascente com a caldeira do moinho de maré do Sargento-Mor Cardeira e estrada pública Verderena-Barreiro, Sul e Poente com a praia do Rio Coina. (ADS, Notarial Barreiro, VIII/40).

1827, Janeiro, 19 — Arrendamento por dois anos de um moinho de maré da Verderena, entre José Pedro da Costa, procurador do Desembargador Francisco Rodrigues Cardeira, a D. Matilde Rosa, viúva; esta apresentou como seu fiador, o sogro, Luís da Costa. (ADS, Notarial Barreiro, VI/50).

1829, Julho, 15 — Arrendamento por dois anos do moinho da Verderena, com 6 engenhos correntes e moentes, entre o Desembargador Francisco Rodrigues Cardeira e D. Matilde Rosa, tendo esta apresentado como fiador, José Miguel Saraiva da Fonseca Morgado. ADS, Notarial Barreiro, VI/50).

1845, Julho, 15— O Desembargador Francisco Rodrigues Cardeira, por intermédio de um seu procurador, João António Comes, advogado no Barreiro, alugou o seu moinho de água salgada da Verderena, pelo tempo de dois anos, a Manuel dos Santos da Costa. (ADS, Notarial Barreiro, VIII/61).

1851, Outubro, 15 — Partilhas entre João dos Santos da Costa, José dos Santos da Costa, Maria Prazeres e Costa, Maria Gestrudes de Jesus Costa, por óbito de seu pai, João dos Santos da Costa Sénior; entre os bens constava um moinho de água, da Verderena, caldeira e um barco grande do moinho. (ADS, Notarial Barreiro, X/60).

1851, Novembro, 8 — Empréstimo de 1:100$000 réis, em moeda metálica, feita por Filipe de Sousa Belfort, Bacharel em Leis, a Luís dos Santos da Costa, negociante de cereais, e sua mulher, D. Maria Gertrudes de Jesus Costa, para ser aplicado nos custos das tornas da herança de seu sogro e tio, João dos Santos da Costa Sénior. Luís dos Santos da Costa hipotecou vinhas e casas de habitação, apresentando como fiador o seu primo e cunhado, João dos Santos da Costa, tendo este, hipotecado casas, vinhas e um moinho de vento na praia da Lezíria (Lavradio), conhecida como praia dos moinhos, confrontado a Norte com o no Tejo, Sul com a marinha de sal de Nicola Covacich, Nascente com moinho de vento de Francisco dos Santos Rompana e pelo Poente com moinho de vento de José Silvestre, além da sua casa de habitação e fábrica de pão e forno, na rua de São Francisco, no Barreiro. Este contrato firmou-se pelas tornas de um moinho de maré de seis engenhos, na Verderena. (ANTT, Notarial Lisboa, C. VI/268).

1851, Novembro, 21— Ratificação da partilha amigável, entre os herdeiros João dos Santos da Costa Sénior, antigo possuidor de um moinho de maré de seis engenhos, sito na Verderena, avaliado em 4 contos de réis, uma marinha de sal contígua, pelo lado Norte a caldeira desse moinho, por 1:348$000 réis. O herdeiro José dos Santos Costa recebeu metade do moinho (três engenhos) a Nascente da casa da recolha dos trigos, enquanto que a outra metade do moinho, porta de água e uma pequena casa que estava no mesmo prédio, coube a Luís dos Santos da Costa. (ADS, Notarial Barreiro, X/60).

1851, Dezembro, 6— Os primos e cunhados José dos Santos Costa e Luís dos Santos da Costa acordaram na serventia de um moinho de seis engenhos, na Verderena herdado do pai do primeiro e sogro do segundo, baseando esse contrato, na divisão do moinho por um tapume com duas fechaduras desiguais, de maneira que nenhuma delas possa ter entrada das chaves pelo lado oposto; caso um deles necessite servir-se para a entrada e condução de géneros ou utensílios próprios para o moinho poderá faze-lo, utilizando a porta que demarcava a propriedade. (ADS, Notarial Barreiro, VIII /62).

1853, Fevereiro, 1 — Venda pelo Desembargador Francisco Rodrigues Cardeira, Comendador da Ordem de Cristo e Juiz da Relação dos Açores, e sua esposa, D. Tereza de Jesus Vila Viçosa, a Manuel dos Santos Costa, proprietário e residente no Barreiro, de um moinho de maré de seis engenhos, confinante a Norte com a caldeira do mesmo moinho e Largo da Maceda, pelo Sul com o Rio Coina, a Nascente com a Quinta dos Arcos e pelo Poente com o moinho de maré dos Herd.os de João dos Santos Costa, pela quantia de 2:900$000 réis; a propriedade era foreira a Fazenda Nacional por 39$000 réis, com laudémio de quarentena. (ANTT, Notarial Lisboa, C. IX/745).

1856, Janeiro, 30 —Manuel dos Santos da Costa viúvo, maior de 50 anos, disse a José dos Santos Costa, major de 25 anos, casado, ter comprado o moinho da Verderena composto de seis engenhos, ao Desembargador Francisco Rodrigues Cardeira e sua mulher, D. Tereza de Jesus Vila Viçosa. (ADS, Notarial Barreiro, X/65).

1862, Fevereiro, 7— Venda de um moinho de água salgada com seis engenhos, caldeira, logradouros e serventias, na Verderena, feita por Manuel dos Santos da Costa a Vicente Ferreira Nunes, negociante e morador em Lisboa. Este imóvel estava em sua posse desde 5 de Fevereiro de 1853, por compra feita ao Desembargador Francisco Rodrigues Cardeira e sua mulher, D. Tereza de Jesus Vila Viçosa. O moinho confinava a Norte com a sua caldeira e Largo da Maceda, Sul com o Rio Coina, Nascente com a Quinta dos Arcos e do Poente com moinho de José dos Santos Costa, sendo um prazo foreiro a Fazenda Nacional em 39$000 réis e tinha laudémio de quarentena. O custo do moinho foi de 4 contos e 900 mil réis, em metal sonante. O vendedor informou, na ocasião, ter adquirido uns sapais e monchões, confundidos com a caldeira do moinho vendido, denominados Marinha Velha, foreira a Irmandade do Santíssimo do Barreiro em $144 anuais com laudémio de vintena, que passavam a formar um só prédio. (ADS, Notarial Barreiro, XI/74).

1867, Dezembro, 23— Arrematação em hasta pública de um foro pertencente a Fazenda Nacional, por extinção da Casa do Infantado, pela quantia de 780$500. O foro tinha vencimento em 31 de Dezembro, imposto num moinho de água e caldeira, na Verderena cujo valor era de 39$000 réis.0 comprador foi Vicente Ferreira Nunes. (ANTT, Arq. Histórico do Ministério das Finanças, Lvº. 559).

1887, Marco, 16 — Carlos Ernesto Augusto Ribeiro, casado, negociante e residente na capital, arrendou por 4 anos o moinho movido a água salgada e uns terrenos anexos, na Verderena, freguesia de Santa Cruz da Vila do Barreiro, a Crispim José dos Santos, casado, proprietário e morador no Barreiro. O moinho era constituído por casas, nove rodízios, caldeira, terreno, um poço e um tanque, confrontando a Norte, Sul e Nascente com estrada pública e pelo Poente com o Rio Coina. Obrigações contratuais do senhorio: Arranjo das paredes, portas, janelas e telhados do moinho, décima predial, impostos paroquiais e municipais; o rendeiro devia pagar 144$000 réis, por trimestre, adiantarnente, na casa do senhorio, custear as obras para o funcionamento do moinho, limpeza da caldeira e recolha, para seu proveito, do peixe que apanhar e receber e devolver no final do contrato, os móveis e alfaias constantes no inventário do moinho de maré, e o gozo dos monchöes da caldeira e terreno de semeadura a Nascente do moinho. Como o rendeiro não iria trabalhar com todos os nove rodízios e respectivas mós que o moinho possuía, ficou obrigado a desembaraçar uma mó que o senhorio podia exigir. (ADS, Notarial Barreiro, XVI/132).

1901, Junho, 15 — Venda de um moinho de água salgada e suas dependências, na Verderena, por José dos Santos Costa, viúvo, morador na Quinta Pequena, do Barreiro, a Isidro Freire, casado, morador na rua do Jardim do Tabaco, nº 74, 1º andar, na capital, pela quantia de 1.240$000 réis. O moinho confrontava do Norte com João Maria de Abreu Moreira, Sul e Poente com o Rio de Coina e a Nascente com serventia e caldeira do moinho de Isidro Freire, sucessor dos Herdeiros de Vicente Ferreira Nunes. A água da caldeira servia também a marinha de sal de Abreu Moreira. (ADS, Notarial Barreiro, XVI/155).

1921, Fevereiro, 21 — A Empresa de Moagem Bomfim, Lda., requereu licença para instalar nos seus terrenos denominado do Alto do Moinho e uma malhada para engorda de gado suíno, isolado dos edifícios da Verderena. A Empresa recebeu o Alvará da administração da C.M.B., tendo funcionado na Verderena durante uns anos. (CMB, Arquivo Municipal, Livro de Alvarás).

2 respostas a Os antigos moinhos de maré da Verderena

  1. Antonio Costa diz:

    Obrigado, pelo trabalho a quem se deu a este artigo, mais uma vez obrigado.
    Antonio Costa

  2. rui Belchior diz:

    Eu estava presente quando decorriam os trabalhos de demolição. Infelizmente, morreu um trabalhador com a queda de uma parede, quando se encontrava a trabalhar com um caterpillar. Durante anos, antes e depois da demolição, muito brinquei nos moinhos de maré com os amigos de juventude. Saudade, muita saudade, agora que passo todos os dias por cima de um marco histórico do Barreiro. Poucos sabem o que se encontra no subsolo daquele sítio. Valem as fotografias e as memórias, por enquanto…

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