A visibilidade da Cortiça Barreirense

António Nunes Camarão – Sector do Património e Museus – CMB

 Desde o final do século XIX que encontramos publicações periódicas relacionadas com o universo da cortiça, umas de iniciativa independente num espirito de jornalismo, outras por empreendorismo das agremiações de classe sejam operárias sejam patronais.

O pioneiro fora “O Corticeiro”, semanário operário que se manteve numa exígua existência de 34 números de 22 de Outubro de 1899 até 10 de Junho de 1900. Em 20 de Agosto de 1922, iniciava a sua publicação um periódico barreirense, “O Mundo Corticeiro órgão quinzenal da corporação corticeira” que teve como director Horácio Alves e como editor Alberto Tomé Vieira. Como se afirmava na sua nota de apresentação, publicada na primeira página do seu número um, determinava-se “para a propaganda e defeza de todos os legítimos interesses empenhados nos diferentes ramos de actividade, que se prendem com a exploração da cortiça, quer sob o ponto de vista comercial e industrial”.

Outros suportes de letra foram sendo publicados com menor ou maior periodicidade, e damos como exemplo o “Boletim Corticeiro – Quinzenário de informação e estatística única publicação deste género em Portugal” do qual e apenas através do título se pode depreender tratar-se de uma publicação jornalística de pendente económico-política, próxima das agremiações de classe patronal, assim o indicam as temáticas publicadas, manteve-se no prelo de 1 de Agosto de 1925 a 15 de Abril de 1926. Com o advento do Estado Novo e na sequência do estabelecimento em 1933 do corporativismo, surge a Junta Nacional da Cortiça (1936 – 1972), que passou a editar desde Novembro de 1938 o “Boletim da Junta Nacional da Cortiça” (BJNC) onde se passam a tratar de todos os assuntos que digam respeito ao sector corticeiro, em âmbito ainda mais alargado do que qualquer das publicações anteriores, evidenciando e elevando o potencial e a qualidade da cortiça nacional, que concorria em primeira linha com os mercados exportadores espanhol e argelino, nela constavam inclusive artigos inovadores resultantes de investigação na aplicação da cortiça para novos propósitos em suporte de muitas e variadas industrias.

O que para além da temática corticeira apresentam em comum tais publicações, que possam aqui merecer a sua inclusão.

Todas elas dependem em grande ou menor parte dos anunciantes, e eles pelo facto de anunciarem também colhem frutos através da publicidade, e todas elas aparecem como veiculo para empresas barreirenses.

A palavra “publicidade” advém do verbo latino “publicare” o que significa tornar público. Antes da Revolução Industrial, propagandeava-se, privilegiando-se com informação descritiva o que se podia transacionar, fosse o tónico capilar, cura milagrosa ou uma propriedade rústica, enaltecendo as sua virtudes e normalmente publicando um endereço ou um nome a quem os interessados se poderiam dirigir para avaliarem ou consumarem a compra.

Com a Revolução Industrial as técnicas da publicidade desenvolveram-se rapidamente, com o crescimento da produção, e a partir dessa época passou a ser mais persuasiva do que informativa, com a crescente necessidade de divulgar e estimular a promoção das vendas dos novos produtos manufacturados. Tornava-se evidente que os anúncios de identificação tivessem de passar a exceder os limites das fachadas industriais e comerciais e se expandissem para as páginas de jornais e revistas. Isso implicou que as empresas dependendo da escala se obrigassem a anunciar, fosse nos jornais locais, mesmo os que não se relacionavam com o seu sector produtivo, ou na simples forma de patrocínio a publicações de autores locais, que no final da obra exibiam os anúncios das empresas que os apoiaram. Numa escala maior as empresas mais fortes investiam nas publicações periódicas de maior divulgação (até estrangeiras) onde para além do anúncio constava uma lista das empresas produtoras e a sua dispersão a nível nacional, aposta feita numa óptica de conquista de novos mercados por solidificar nos continentes europeu e norte-americano, desde o início do século XX e até ao período após o segundo conflito mundial.

A virtude dos anúncios é desde logo afirmada em 1922 no primeiro número de “O Mundo Corticeiro” onde se afirma “Noutros países produtores de cortiça, como na Espanha, França e Argélia, e até mesmo não produtores, como por exemplo na Alemanha, publicam-se e vingam prosperar com manifesta vantagem para os interessados, alguns jornais da especialidade – que por sinal e por via de regra bem feitos, – que seguramente promovem a intensificação da produção; servindo ao mesmo tempo de tribuna para a discussão e exposição publica de todas as medidas e alvitres, sejam de caracter oficial, ou simplesmente particular, que à mesma digam respeito. É precisamente a esses jornais que têm sido obrigados a recorrer os negociantes e industriais corticeiros portugueses para a propaganda dos seus produtos, e bem assim os consumidores estrangeiros que com eles pretendem relacionar-se; e tal não seria mester se existisse entre nós um periódico desta índole desde que hoje vê a luz. Contra a utilidade de semelhante iniciativa sob o ponto de vista importante das transacções internacionais, não colhe sequer o argumento da nossa língua estar menos vulgarizada no estrangeiro do que qualquer das outras a que aludimos; posto que, modernamente, para as boas casas do estrangeiro não existem dificuldades de tradução”.

Pegando no exposto, o facto é que nada do que foi escrito na data é desprovido de substância; até porque a nível nacional, a maioria dos compradores de matéria-prima em bruto ou transformada, possuíam escritórios próprios ou delegados em Portugal, outros, produtores mesmo industriais, eram de origem inglesa, alemã, americana, espanhola (entre estes muitos da Catalunha), belga ou francesa.

Mas as preocupações com a dependência do anunciante, para poder continuar no prelo, foram também demonstradas pelo “O Mundo Corticeiro” que na página dois do seu primeiro número deixa explícito – “A publicidade «honesta» é o caminho mais curto para atingir o sucesso.” e adiciona “Deveis anunciar em «O Mundo Corticeiro» pois um tão pequeno gasto será bem compensado pelo mais insignificante aumento que ele acarrete para as vossas transações.”

Estava neste aspecto o quinzenário barreirense com os restantes, pois quatro anos depois, em 1926, o “Boletim Corticeiro” diz em caixa no meio das páginas de anúncios que “A falência é o prémio inevitável do comerciante que não anuncia – consultem a nossa tabela e anunciem já no próximo número” reforçando no final dos anúncios, em letras garrafais que “Os anúncios são sementes que só muito espalhadas dão bons fructos. – E se for boa a terra onde se espalhem tanto maior e melhor será a sua produção

A partir de Novembro de 1938, com o seu primeiro número, o “Boletim da Junta Nacional da Cortiça” vai reforçar também esta ideia de forma mais directa e mais clara, como era já o estilo de comunicação que se começava agora a desenvolver em Portugal, mas que na Europa começara por volta dos anos vinte do século passado.

De facto as técnicas de comunicação haviam mudado, e do anúncio passou-se para a efectiva publicidade, com significativas mudanças no campo artístico, em que se rompeu com os modelos tradicionais, e influenciaram enormemente as artes gráficas, o desenho industrial, a aquitectura e o urbanismo. Paralelamente a publicidade (exterior, impressa, corporativa, etc.) que agora sofria expressivas alterações formais e de conteúdo. Não é por acaso a sugestão “Recomendamos para melhor resultado da sua publicidade, o emprego do anúncio artístico, à semelhança de alguns que já ilustram as páginas do presente número.” Divulgar um  estabelecimento comercial, neste contexto, assumiu características mais complexas, relacionadas com a comunicação visual do produto e do serviço com a indução no consumidor de pensamentos, sentimentos e valores, ao mesmo tempo que começava a surgir o peso dado ao nome da marca e do logotipo, através do branding que começara no século XIX, mas que agora perante uma comunicação alargada demonstrava a sua real importância .

De facto se olharmos atentamente para os exemplares de anunciantes barreirenses, podemos deles extrair conclusões que reforçam tudo o que anteriormente foi dito. Em 1940 Horácio Alves é autor e editor de “A Vila do Barreiro – Ensaio para servir de subsídio à sua história”, e tratando-se do mesmo Horácio Alves que fora director do periódico barreirense “O Mundo Corticeiro”, natural nos parece que a sua obra fosse impressa maioritariamente com o patrocínio, ou como diz o autor com o “concurso” de empresas corticeiras locais. A obra parece ter tardado em ser dada à estampa, pelo que o autor no final do texto e em destaque de página escreve: “Anúncios – Antes da publicação dos anúncios que se vão seguir, queremos apresentar aos senhores anunciantes os nossos agradecimentos pelo concurso que, assim, nos dispensaram; e ao mesmo tempo, as nossas desculpas por não termos podido dar à estampa obra mais completa”  Este facto que pode passar despercebido denota a importância que tiveram os patrocinadores e a responsabilidade do autor em exibir os frutos do patrocínio com a inclusão dos anúncios combinados. Tanto “O Mundo Corticeiro” de 1925 a 1926 como o livro dado à estampa em 1940, foram impressos na Tipographia Comercial, Lda no Barreiro, com o seu estilo próprio, que no início era o usual, mas que parece não ter evoluído nem no uso das fontes tipográficas, nem nos formatos, ou arranjos, como se dizia então. Os anúncios apresentam-se geralmente em moldura, com apontamentos decorativos nos vértices, ou nos lados, e por vezes com decoração interior utilizando os mesmos caracteres decorativos usados nas bordaduras. O tipo de anúncios, utilizados no “Boletim Corticeiro”, é dentro dos mesmos moldes da imprensa da época, em moldura mas no entanto já se nota alguma diferença nas fontes tipográficas utilizadas e não usa a decoração, o carácter informativo denota-se mais profissional de acordo com o objectivo a que se propõe, são comuns a indicação de telefone e de telex ou código telegráfico, o que nos exemplos referidos anteriormente só acontecia com as maiores firmas barreirenses ou com as que tinham sede em Lisboa.

O salto qualitativo, que demonstra o acompanhar dos tempos, está patente na publicidade apresentada no “Boletim da Junta Nacional de Cortiça” com particular indicação para os da firma “Barreira e Cia. (Irmãos)” ou da “Sociedade Nacional de Cortiças” da família Reynolds, onde o cuidado da apresentação denota já a execução por uma agência de publicidade e que se enquadram em perfeita sintonia com os exemplos da publicidade da própria Junta Nacional da Cortiça, apresentando-se até em mensagem bilingue visando o mercado externo, ou ostentando o branding, a imagem de marca pelo logotipo que poderia fazer diferenciar as cargas a exportar, permitindo a identificação rápida dos lotes da cortiça, fosse em prancha ou ensacada.

Para além da visualização da imagem transmitida pelo universo industrial corticeiro barreirense, o grande contributo desta recolha de publicidade, foi o poder recolher ou acumular em paralelo com outras fontes, informação variada sobre este sector empresarial; informação sobre a localização, sobre a diversidade das produções. Podemos mesmo assistir à transferência da indústria para o Barreiro pois de uma data para outra pode constatar-se na morada da empresa a sua deslocalização a partir do Algarve ou de outras localidades para o Barreiro. Podemos ainda constatar que empresas existem que nunca anunciaram, ou pelo menos não conseguimos apurar, senão a localização da sede na capital, como é o caso da firma “H. zum Hingst”, a empresa que foi conhecida localmente como fábrica do alemão, na Quinta da Maceda, actual Parque da Cidade, ou da firma “Estabelecimentos Herolds” da qual apenas se dá por ela num único anuncio local, sendo toda a restante publicidade com indicação da sede em Lisboa.

Aharens Novais

Boletim corticeiro 1925

António Domingos Gomes

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

A. J. Calhau

BJNC 1948

António Padrão

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

António Pessanha & C.,ª L.da

O Mundo Corticeiro 1 Set 1922

O Mundo Corticeiro 15 Out 1922

Barreira & C.ª (Irmãos)

BJNC 1939

BJNC 1939

BJNC 1939

BJNC 1939

BJNC 1939

BJNC 1939

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

Belchior Viegas

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

Borrego & Borregos

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

Cantinhos & Marques, Ltd.

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

Carlos Monteiro

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

Ferreira Felipe, L.DA

Boletim corticeiro 1925

BJNC – 1938

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

Francisco Chaves Morales

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

Francisco S. Cabrita

Boletim Corticeiro 1 Out 1925

Francisco Sabino

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

Estabelecimentos Herold, L.DA

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

Horácio Alves

O Mundo Corticeiro 20 Ago 1922

O Mundo Corticeiro 1 Set 1922

O Mundo Corticeiro 1 Out 1922

José da Costa

O Mundo Corticeiro 1 Out 1922

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

José Ferreira Filipe

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

João Ignácio Nunes, Ltd.

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

J. J. Fernandes

BJNC 1938

BJNC – 1940

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

João dos Reis Vieira

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

João Tanganho

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

Joaquim Alves & C.ª, L.DA

O Mundo Corticeiro 20 Ago 1922

O Mundo Corticeiro 15 Out 1922

O Mundo Corticeiro 15 Out 1922

José da Costa

O Mundo Corticeiro 15 Set 1922

O Mundo Corticeiro 15 Out 1922

L. Van der Hilst

O Mundo Corticeiro 15 Out 1922

Manuel da Cunha Júnior

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

Manuel João Gonçalves

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

Manuel de Sousa Eusébio

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

Quintino & Nunes

O Mundo Corticeiro 20 Ago 1922

O Mundo Corticeiro 1 Set 1922

O Mundo Corticeiro 15 Out 1922

R. de Carvalho & Cª

BJNC 1938

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

Sancho, Irmãos, L.DA

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

BJNC 1948

Sociedade Nacional de Cortiças A.R.L.

BJNC 1938

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

BJNC 1939

Sociedade Internacional de Aglomerados de Cortiça, L.da

O Mundo Corticeiro 20 Ago 1922

O Mundo Corticeiro 15 Out 1922

Teodoro Rubio & Filhos, Ltd.

O Mundo Corticeiro 20 Ago 1922

O Mundo Corticeiro 15 Out 1922

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

BJNC 1940

Viúva de Vicente da Fonseca Morais & F.os

O Mundo Corticeiro 1 Set 1922

O Mundo Corticeiro 15 Out 1922

Zeferino Nunes Ferreira

Patrocínio a Horácio F. Alves – A Vila do Barreiro – 1940

Uma resposta a A visibilidade da Cortiça Barreirense

  1. Carlos Guinote diz:

    Vou enviar para amigos meus ligados a esta indústria.

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