O Barreiro e a rede energética

António Nunes Camarão – Sector do Património e Museus – CMB

Desde o final do século XIX e sobretudo a partir do início do século XX a eletricidade não se reduzia a uma mera modernice, mas sim a numa necessidade para enfrentar o futuro. A distribuição de força motriz no interior das unidades industriais fazia-se, até então, a partir de máquinas a vapor e por sistemas de desmultiplicadores, veios, tambores e correias. Acontecia assim nas modernas moagens, nas oficinas mecânicas, nas corticeiras, em todo o lado onde fosse imperativo quebrar a inércia dos mecanismos usados no processo de fabrico, e assim, ficava já longe a época onde essas mesmas unidades produtivas dependiam das forças da natureza, como o vento ou a água, e da força braçal num movimento contínuo de manivelas, de manípulos ou de pedais. Mas mesmo sendo o vapor uma força motriz, da qual não restam dúvidas ter constituído um grande avanço tecnológico, as perdas de potência ao longo das linhas de fabrico eram importantes e constituíam um problema técnico, que só tinham resolução no aumento da capacidade das caldeiras geradoras de vapor, com o inerente aumento do consumo de lenha ou carvão de coque, e com o agigantar ou multiplicar as próprias maquinas a vapor consoante a dimensão da unidade produtiva.

O aparecimento da energia elétrica levou então a mais um passo na Revolução Industrial em curso que inserida num processo de modernização da maquinaria, melhorou a capacidade produtiva, e até as condições de trabalho, se invocarmos por exemplo que a iluminação no interior das fábricas era obtida por grandes janelões vazados nas fachadas ou por esteiras de telhas de vidro nas coberturas, quando não mesmo assegurada apenas por sistemas a petróleo ou gasogénio. A maioria das máquinas foi convertida acoplando-se-lhe um pequeno motor elétrico individual sendo este apenas ligado à rede geral, desapareciam assim as perdas de potência energética e os problemas decorrentes do condicionalismo das linhas de veios, tambores e correias. Agora a maquinaria era passível de ser distribuída no espaço fabril, sem ter de esta alinhada ao longo da fila de tracção, o que por si só melhoraria a rentabilidade e as condições produtivas.

A produção de energia

Desde o início do século XX as várias centrais elétricas, quer diesel quer termoelétricas (com apoio de caldeiras geradoras de vapor) que existiram no Barreiro, quase todas elas estavam ligadas ao serviço particular de unidades industriais.

BarreiroCompanhia dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste. Noticiava a Gazeta dos Caminhos de Ferro de Dezembro de 1902 que a companhia contratara com a casa Siemens & Halske a instalação elétrica da força motriz nas oficinas do Barreiro. Funcionou com 525 kW de potência. A partir de 1932, cinco anos depois do incendio de 1927, passa a receber apoio da Câmara Municipal via Sociedade Industrial do Bonfim, Lda. e a partir de 1941, da União Eléctrica Portuguesa – Sul (UEP).

A Central de energia da CP num quadro de Belmiro

BarreiroEstabelecimentos Herold, instalada no início do século XX é desativada em 1946 tendo atingido uma potência de 136 kW. A parir de 1932 passa a receber apoio da Sociedade Industrial do Bonfim, Lda.

A central da Herold ao centro do pátio num quadro de Belmiro

A central da Herold ao centro do pátio num quadro de Belmiro

A central da Herold numa foto do álbum da empresa reproduzido por A. Patacas

BarreiroCompanhia União Fabril / Quimigal E.P., Em 1909 as unidades fabris em laboração foram alimentadas inicialmente por uma central equipada com motores a vapor ingleses da firma Belliss & Morcom (Birmingham) para produção de energia elétrica e ar comprimido.

A primeira central de energia da CUF junto da Zona Adubos – Foto: Museu Industrial

A primeira central de energia da CUF junto da Zona Adubos – Foto: Museu Industrial

Com a mudança e expansão da Zona Têxtil para outra área do complexo fabril, a central elétrica existente ficou desadequada e por essa razão, em 1935, foi construída uma nova central a diesel dotada dum conjunto de cinco grupos motor/gerador de origem alemã da marca M.A.N., inicialmente com uma potência de 3600 CV, a qual viria a ser ampliada, nos anos seguintes, para 6100 CV.

2ª Central a Diesel – Foto: Museu Industrial

O aproveitamento de vapor resultante da fabricação dos ácidos possibilitou, em 1952, a criação de uma central a vapor com duas turbinas Alsthom de origem francesa, uma de alta e outra de baixa pressão com potências aparentes de 1810 Kva e 1075 Kva. No caso de falta de vapor suficiente as turbinas eram apoiadas por uma caldeira a carvão Lamont. A partir de 1946, passa a receber apoio complementar da União Eléctrica Portuguesa (UEP). O aumento do número de fábricas de ácidos, levam ainda à construção de mais duas centrais a vapor, em 1961 a CV II com turbina Siemens podendo produzir 3390 Kva e em 1981 a CV III com turbina A.E.G. para uma geração de 18500 Kva, mesmo assim insuficiente para o consumo do complexo fabril, sendo necessário manter o apoio complementar a partir da rede da EDP.

 

Central a Vapor nº2 - Foto: Museu Industrial

Central a Vapor nº2 – Foto: Museu Industrial

VerderenaCompanhia Industrial de Vila Franca e Bonfim, Lda (depois Sociedade Industrial do Bonfim, Lda), Inicialmente construída no extremo noroeste dos terrenos da Empresa de Moagem Bonfim, Ldª para fornecer energia elétrica à unidade moageira que laborava nos moinhos da Verderena e à unidade de suinicultura que lhe estava contigua foi inaugurada em 5 de Outubro de 1926 atingindo uma potência instalada máxima de 528 kW.

Localização da Central de energia da Bonfim marcada a vermelho.

Localização da Central de energia da Bonfim marcada a vermelho.

O edifício da central da Sociedade Industrial do Bonfin – Fotos: CMB

O edifício da central da Sociedade Industrial do Bonfin – Fotos: CMB

A partir de 1929 a central passa a prestar serviço externo no fornecimento ao sector doméstico, industrial e na iluminação pública municipal. A empresa que a partir do início dos anos 30 adopta a denominação de Sociedade Industrial do Bonfim, Lda. passa a receber a partir de 1942 o apoio da União Eléctrica Portuguesa (UEP).

LavradioInternational Insulation Cork Products, Cº. Esta unidade de produção corticeira sita na Quinta da Palmeira na estrada que ligava a estação ferroviária do Lavradio à vila do mesmo nome, instala em 1936 uma central de produção de energia com 136 kW de potência que muito provavelmente serviria também a corticeira Barreira & Irmãos. A partir de 1948, passa a receber apoio da União Eléctrica Portuguesa (UEP).

Vale de ZebroEscola Prática de Torpedos e Electricidade – Brigada de Mecânicos. Anterior a 1910 destinava-se ao carregamento das baterias propulsoras dos torpedos e para apoio às oficinas de manutenção naquela unidade da Marinha, funciona até 1934 com 71 kW de potência.

LavradioElectricidade de Portugal, A Central da EDP no Lavradio iniciou a sua operação em Agosto de 1978 tendo sido começada a construir em 1973 ficaria terminada de acordo com o plano geral em 1979. Foi projetada para uma capacidade de produção para a rede de 60Kv, a partir dois grupos turboalternadores com as potências nominais unitárias de 31,6 MW e 32,9 MW. Teve como objetivo, para além da produção de energia elétrica, a produção de vapor destinado à operação do Complexo Fabril da UFA (União Fabril do Azoto) e da FISIPE., a energia restante era injetada na rede nacional, pois a EDP substituiu no plano nacional a UEP, e toma conta de todas as subestações desta, na área da distribuição energética passando todo o Concelho a estar sob a sua responsabilidade quer no sector de consumo doméstico, público e industrial, uma vez que, por exemplo, colmatava o défice energético da Quimigal para a qual a produção própria de energia não se afigurava suficiente.

A Central da EDP no Lavradio.

A Central da EDP no Lavradio.

A distribuição de energia

O Concelho do Barreiro beneficiou de eletrificação de forma faseada: O Barreiro, antes de 1928, o Lavradio, em 1936 e Palhais/Coina em 1945. Para tal teve por base o sector da distribuição que inicialmente partiu da Sociedade Industrial do Bonfim e posteriormente da União Eléctrica Portuguesa (UEP).

Localização da subestação da UEPque se situava onde hoje é o cruzamento da Rua Miguel Bombarda com a Avenida do Bocage

Localização da subestação da UEP que se situava onde hoje é o cruzamento da Rua Miguel Bombarda com a Avenida do Bocage

A subestação inicial da UEP num pormenor de uma foto cedida por Doris Zum Hingste

A subestação inicial da UEP num pormenor de uma foto cedida por Doris Zum Hingste

A UEP esteve no início (data que ronda o ano de 1942) presente com uma subestação que se situava onde hoje é o cruzamento da Rua Miguel Bombarda com a Avenida do Bocage, e posteriormente vem a construir duas subestações uma em Coina e outra no Barreiro (Bairro das Palmeiras) ambas com projeto do distinto arquiteto Keil do Amaral.

A subestação de Coina (1954) que foi elaborada com a colaboração dos engenheiros Álvaro de Freitas e do empreiteiro René Touzet, vai de algum modo constituir o modelo da série das novas subestações da UEP cujos projeto/execução decorreram entre 1948 e 1965.

UEP subestação de Coina – Foto DOCOMOMO IBÉRICO

UEP subestação de Coina – Foto DOCOMOMO IBÉRICO

Na subestação do Barreiro (1958) foi ensaiada uma solução nova que a vai distinguir de toda a série, nela o elemento primordial foi o betão moldado.

UEP subestação do Barreiro – Foto: DOCOMOMO IBÉRICO

UEP subestação do Barreiro – Foto: DOCOMOMO IBÉRICO

Desde 1978 com a criação da central térmica da EDP no Lavradio, a distribuição passou a ser assegurada por esta empresa que havia sido criada em 1976 para gerir a rede energética nacional.

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