O Barreiro e a República

Contributo para a rota da República no Barreiro

António Nunes Camarão – Sector do Património e Museus – CMB

Barreiro – A Revolução anunciada

 Já no final do século XIX o Barreiro se apresentava como uma amálgama de classes e profissões, mas na primeira década do século seguinte a localidade que começava a assumir posição de relevo no panorama nacional pela concentração de classe operária. A par da instalada burguesia comercial, dos pescadores e agricultores, surgiram os ferroviários, os corticeiros e por último uma mescla de operários e trabalhadores que se apresentavam para fazer crescer a recém chegada Companhia União Fabril.

Junto de toda esta massa operária, de orientações políticas diversas, desde cedo que os ideais republicanos tiveram forte implantação. A par dos anarquistas e socialistas, que também eram adversos ao regime monárquico vigente, havendo já na terra centros socialistas, dos quais se destaca o 3º Centro fundado e orientado por Ladislau Batalha, não é de estranhar que esse ideário republicano tenha começado a fazer eco, nomeadamente no que toca à importância dada à cultura que, dentro das associações de classe ou nas florescentes Sociedades Recreativas, adquiria crescente promoção. É nessa linha que se insere o aparecimento dos Centros Republicanos que constituem aqui, como em todo o país, um marco fundamental para a construção e consolidação de consciências que serviriam de plataforma para a mudança, orientada na urgência da troca de Regime. Justificava-se portanto a criação do Centro Escolar Republicano Dr. Estêvão de Vasconcelos, fundado em 1908 e a funcionar na Praça de Santa Cruz nas antigas instalações dos Paços do Concelho que entretanto se havia mudado para o novo edifício na rua Albers.

Desde Julho de 1906 que estava instalada no Barreiro a Loja Maçónica Esperança no Provir, criada por iniciativa do republicano e maçon António Augusto Louro, farmacêutico radicado no Seixal que tinha por lema pessoal “Sem liberdade não há Democracia, sem Instrução não há Liberdade”. Tal como no Seixal, onde António Augusto Louro criou a primeira escola gratuita para a educação de adultos e promoveu a Comissão Escolar de Beneficência e Ensino do Seixal cuja acção em matéria de ensino era complementar à realizada pelo Centro Republicano do Seixal também a seria natural que a Loja Esperança no Provir viesse a colaborar com o Centro Escolar Republicano Dr. Estêvão de Vasconcelos, dando consistência ao ideal partilhado por republicanos e maçons de que um operário instruído e culto seria um eleitor consciente.

A Carbonária também tinha forte expressão no Barreiro. Dela existiam núcleos em plena actividade em toda a margem Sul do Tejo, nomeadamente em Palmela, na Moita, em Almada, Cacilhas, Aldeia Galega e Alcochete. Mas esta força operacional e revolucionária, verdadeiros homens de mão, combinavam um misto entre o ideal republicano e maçónico, servindo de força infiltrada cujo lugar de oportunidade eram os Centros Republicanos onde, durante todo o ano de 1909 fervilhou a agitação política.

Já em 1908 os republicanos haviam publicado no Almanaque Democrático uma lista de 77 comissões municipais onde aparece para o Barreiro, o nome de Manuel Marques de Oliveira como Presidente. Após o Congresso Republicano de Setúbal (23/25 Abril de 1909) o discurso republicano endurece com a decisão de “Revolução em vez da Evolução”, e começa uma campanha exaustiva e fervorosa na qual o Barreiro foi palco por variadas vezes.

Em Maio de 1909, com o intuito de discursar aos corticeiros, os republicanos vieram ao Barreiro, no dia 15 de Novembro de 1909 e numa série de conferências promovidas pelo Centro Democrático Académico de Lisboa teve lugar uma no Barreiro em que Trinas Júnior foi o orador. Em 27 de Novembro de 1909 no Barreiro, realizou-se um comício promovido pelo Grémio Mocidade Liberal, em colaboração com o Centro de Estudos Republicanos Dr. Estêvão de Vasconcelos. A 13 de Dezembro desse ano, também no referido Centro Escolar Republicano Dr. Estêvão de Vasconcelos tem lugar um comício que conta com a presença de Cupertino Ribeiro, membro do Directório, e de António José de Almeida membro do Comité Civil, além de outros vultos do Partido Republicano.

Cupertino Ribeiro, como foi noticiado no jornal O Século de 13 de Dezembro de 1909, afirmaria então que “A obra da democracia tem de ser grande, porque o País está quase todo por inteiro por desbravar.”, evocando a necessidade geral de mudança proposta pelos republicanos dando ênfase á necessidade de acabar a todo o custo com o esquecimento a que fora levada a instrução e a educação do povo. António José de Almeida por seu lado seria incisivo ao dizer “A revolução salvará o País, e da hecatombe que ela produzir apenas sairá um cadáver – o do regime.”. Em 1910 e apesar de existirem eventos anteriores nesse ano, os republicanos iniciaram a fase de propaganda activa a partir de 7 de Agosto, voltando em força para um comício no Lavradio. Em Setembro eclode um movimento grevista em torno da classe corticeira e à qual os operários da C.U.F. em solidariedade se juntaram numa paralisação.

Tornava-se claro que a Revolução estava em marcha e os barreirenses viriam a fazer parte do plano como operacionais, num enredo que juntará Republicanos, Maçons e Carbonários, sendo estes últimos os verdadeiros operacionais, segundo o plano de Machado dos Santos. A organização da margem sul seria então atribuída ao Dr. Ernesto Carneiro Franco, republicano e carbonário de Aldeia Galega. Este deveria coordenar os movimentos dos revolucionários desde as 23 horas de dia 3 nos diversos Concelhos e também as diligências a fazer junto da Escola Prática de Torpedos e Electricidade de Vale de Zebro. Ainda nessa noite e antes da hora combinada teria havido uma reunião no Barreiro para ajustar os últimos detalhes.

Como deixou escrito Machado dos Santos os republicanos do Barreiro deviam apoderar-se do vapor da carreira, cortar as comunicações com Lisboa e vigiar a beira-mar”, outros deveriam encontrar-se na praia Norte para fazer fogo e assinalar para os cruzadores insurrectos, que na localidade a operação decorria com normalidade.

A operação foi bem sucedida os barcos de passageiros D. Amélia e D. Afonso foram sabotados nas primeiras horas de dia 4, só fica de serviço o rebocador Vitória. Simultaneamente são interrompidas as ligações telegráficas e ferroviárias com a capital, ao mesmo tempo que os Paços do Concelho são ocupados e a Junta Revolucionária é apresentada, sendo nomeado o professor Ricardo Rosa y Alberty como Administrador. No entanto a adesão de Vale de Zebro onde estavam cerca de duas mil armas e cem mil munições, foi mais complicada, o comandante da unidade, Almeida Lima, recusava aderir apesar das insistências dos populares armados que para ali se tinham dirigido, vindos até de Aldeia Galega, e do exposto pelo 1º tenente João Fiel Stockler, também ele carbonário, e que agia como emissário das forças revolucionárias, auxiliado pelo cabo torpedeiro Carlos dos Reis Cadete e pelo segundo artífice torpedeiro electricista Carlos Freitas, por certo membros da “choça” que existia dentro da unidade. A adesão só veio a acontecer depois de José Luís Costa e João dos Santos Pimenta da  Junta Revolucionária do Barreiro conseguir fazer atracar o rebocador Vitória ao cruzador revoltoso, S. Rafael, de onde veio reforçado com uma força militar que devia dirigir-se para a Escola de Torpedos, e de a partir do S. Rafael seguir pela telegrafia a ordem para Vale do Zebro: “Queiram render-se e proclamar a República”. Perante esta ordem a unidade militar submetesse aos revolucionários, o tenente Frederico Pinheiro Chagas que dera a cara pela manutenção do regime falhara e suicida-se. Resolvido o impasse em Vale de Zebro os tenentes Stockler e Santos Pato conduzem para junto dos cruzadores Adamastor e S. Rafael, no Tejo, os torpedeiros de que assumiram o comando.

 A Revolução está na rua no Barreiro.

 No Barreiro os acontecimentos que se iniciam no termo da noite de dia 3 de Outubro e decorrem durante o dia seguinte são testemunhados por Ladislau Batalha, socialista de convicção e redactor do jornal quinzenal Ávante que desde Dezembro de 1909 se publicava no Barreiro.

Pela uma hora e meia da noite já vai havendo grande reboliço. Pelas três horas vão-me acordar em sobressalto, prevenindo-me de que alguma coisa anormal se estava passando […]

Sem surpresa fui-me vestindo, enquanto o sino de Santa Cruz vertiginosamente tocava a rebate.

Passam grandes turbas de povo amotinado, desfraldando a bandeira bicolor da república. Os vivas de entusiasmo entoam os ares.

Conhece-se que investem com os Paços do Concelho. Ouço bater repetidas vezes e com frenesim ao portão. O guarda do edifício hesita em abrir. Entretanto a multidão consegue escalar a varanda do edifício.

Oiço o destroçar de vidraças, ao mesmo tempo que o portão se abre, e a turba entra nos Paços do Concelho, por entre aclamações à República Portuguesa.

Da minha janela vejo que se hasteia no alto do edifício a bandeira encarnada e verde que todos salvam com vivas entusiásticos.

É dia. A repartição da Fazenda e Administração, instaladas nos Paços do Concelho conservara as suas portas encerradas.

Estão interrompidos os serviços públicos.

Aqui viera alguém da Aldeia Galega na véspera e reunira clandestinamente com os revoltosos para as bandas do cemitério novo.

De madrugada por isso, e em virtude do prévio, foi aclamada da rua por todo o povo uma junta que da janela dos Paços haviam indicado. Tendo-se deliberado que o professor Alberty ficasse como Administrador, foi nomeado para a Junta o sr. João dos Santos Pimenta. […]

São levantados os rails do Caminho-de-ferro e cortadas as ligações telegráficas ficando assim interrompidas as comunicações. […]

Tocaram as buzinas das fábricas a chamar os seus operários, mas ninguém compareceu. Nos fabricos de cortiça também não se trabalhou.

 Deste relato e de outras leituras, ressaltam factos que deixam perceber que o momento era esperado, que para ele existia um plano no qual o Barreiro teve um papel importante: Os movimentos foram ultimados numa reunião clandestina no ínicio da noite de dia 3; Na madrugada de quatro perante as movimentações tumultuosas, Ladislau Batalha reage sem surpresa; Quando os insurrectos chegam junto dos Paços do Concelho, alguém possui uma bandeira Republicana pronta para ser hasteada; A Junta Revolucionária estava definida com antecedência.

A Junta era composta pelos republicanos: José Tavares Veloso (Comerciante), Joaquim Lopes Ferreira (Comerciante), José Luís da Costa (farmacêutico), Caetano Francisco da Silva (Ferroviário), José Bento Esteves (empregado de escritório), Ricardo Rosa y Alberty (professor primário) e João dos Santos Pimenta (Empregado de escritório CFSS). Dos enumerados sete membros de que era formada, quatro haviam sido fundadores da Loja “Esperança no Porvir”.

Na vila operária pelas 12 horas e 30 minutos o povo ouvia Ricardo y Alberty e João dos Santos Pimenta, membros da Junta Revolucionária. A República foi proclamada e o Barreiro esteve na vanguarda da Revolução.

Manuel Marques de Oliveira, o nome anunciado pelos republicanos quando em 1908 publicaram no Almanaque Democrático uma lista de 77 comissões municipais, veio a ser de facto o Presidente da Câmara Municipal do Barreiro em 1910.

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