O Caminho de Ferro e o Barreiro

A industrialização chega sobre carris

Em 1854 foi adjudicada a um grupo de capitalistas, dos quais se destacam os nomes de Tomás da Costa Ramos e José Pedro da Costa Coimbra, a construção do ramal ferroviário ao Sul do Tejo. Sete anos mais tarde (1861) é inaugurada a Estação de Caminho de Ferro do Barreiro, actuais oficinas da EMEF: «Todo o frontispício é ainda o mesmo desde a sua inauguração, tendo 65 m. de frente, com 16 vãos de janela e portas, três portões e relógio no frontão. (…) O edifício possuía as melhores condições para o fim a que se destinava, apenas o acesso dos passageiros a ele, ou dele para os barcos da carreira [Caís do Mexilhoeiro], é que se mostrava deficiente e muito incómodo» PAIS, Silva, 1963.

Do caís do Mexilhoeiro a Estação distavam 2 km, os quais se transpunham pelo areal da praia. As críticas suscitadas por este trajecto foram ultrapassadas quando em 1884 se inaugurou uma nova estação, projectada pelo Eng.º Miguel Pais. A nova Estação terminus ferro-fluvial dotada de um caís acessível possibilitava um transporte mais cómodo de pessoas e mercadorias entre as duas margens.

A implantação do Caminho de Ferro provocou significativas mudanças na estrutura socio-económica do Barreiro. A antiga vila ribeirinha torna-se atracção de muitos operários e suas famílias oriundos sobretudo do Sul do país, que no caminho de ferro encontravam trabalho e aqui se fixaram, deixando marcas muito próprias na cultura ainda hoje identificáveis.

“ Com os ferroviários desponta a vida operária no Barreiro. Constituem, logo de inicio, um grupo bastante heterogéneo sob o ponto de vista profissional. Organizam-se em torno de dois núcleos principais. O pessoal das máquinas, deslocado em geral de outros pontos do país, formado pela própria empresa, é qualificado e está legado ao movimento das locomotivas, dos vapores e das fragatas. Forma um pessoal itinerante que nem sempre se fixa definitivamente no Barreiro. O pessoal das oficinas, mais estável, igualmente qualificado, é responsável pela manutenção das máquinas ou mesmo, como virá a acontecer mais tarde, pela construção de certas peças e acessórios (por exemplo grandes caldeiras). A estes dois grupos podemos ainda acrescentar uma porção considerável de simples “trabalhadores” da “Via e Obras” de construção civil realizadas nas gares, nos depósitos ou nos armazéns, ou mesmo dos empregados que a Companhia recruta para a construção das linhas de ferro. (…)

“Elas é que faziam uma distinção. Porque os ferroviários era considerada uma classe à parte. Mais privilegiada. É que tinha os passes para passear no caminho de ferro, iam para onde quisessem … e os outros tinham que pagar bilhete!”. Não admira que fossem, por isso, um “pessoal querido aqui na terra”.

Os ferroviários viram ainda a possuir uma sólida estrutura associativa. Logo em 1894, um grupo de operários dos caminhos de ferro constituía a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Sul e Sueste (…) Cerca de dois anos depois, está a funcionar o “armazém de consumo” da Caixa de Socorros Mútuos do Caminho de Ferro (…) A criação do Sindicato do Pessoal dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste (…) em 21 de Novembro de 1914. (…) A Casa dos Ferroviários “sonho transcendente de uma classe laboriosa” torna-se um facto em 1922. Finalmente, em 1 de Janeiro de 1927, inaugura-se solenemente o Instituto dos Ferroviários do Sul e Sueste, “obra de protecção e educação” de crianças órfãs de ferroviários.

No Barreiro, a classe ferroviária oferece, sem dúvida, um primeiro exemplo local de uma aristocracia operária. (…) Posição que só os operários de carreira da CUF viriam, um dia mais tarde, a disputar.” Ana Nunes de Almeida, 1998

Uma vila de pescadores transforma-se progressivamente numa vila industrial e de operários, cujos bens patrimoniais se encontram materializados na primitiva Estação Ferroviária; Estação de Caminho de Ferro do Sul e Sueste; Casa dos Ferroviários do Sul e Sueste; rotunda das máquinas; troços e ramais ferroviários; depósito de água; gruas de estação; armazéns e outras instalações.

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